O RISCO DA LEALDADE

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Artigo escrito e publicitado em 29/07/2019

“A lealdade é um risco. À primeira vista, pode não parecer. Mas é. Haverá nela, as alegrias de amizade e haverá, muitas vezes, as generosidades do sincero reconhecimento. Mas, na hora crucial, a lealdade é muito mais difícil do que se poderia supor. Porque simplesmente não é leal, embora cômodo e sobretudo rendoso, o gesto de concordar com tudo e tudo aplaudir e tudo elogiar. 

Amigo é quem quer o bem do amigo; não o que, ou para não o desgostar, ou por calculado interesse, o conserva iludido e lhe falseia os fatos e suas repercussões. Pior ainda o que explora os defeitos do outro e os pinta com as cores da virtude. 

Toda a deficiência pode, a alguma luz parecer qualidade. Se o outro é escrupuloso e hesitante caberá menos ao amigo louvar, nisso, requintes de prudência e moderação, do que estimulá-lo a vencer sua tendência omissiva.

Se, ao invés, o outro apressa-se em tomar decisões em cima da perna, meio açodadamente, sem ouvir quem seria indispensável ouvir, ao amigo caberá menos exaltar tais inclinações como próprias de um temperamento singularmente enérgico, do que recomendar pausa e reflexão. Por que não amadurecer certos ímpetos e esfriar certos entusiasmos? Que mal haverá em pensar duas vezes sobre assuntos que se sabe gravíssimos?

(…) o amigo leal estará tão pronto para, quando necessário, com a delicadeza e a discrição convenientes, chamar a atenção do outro para defeitos ou equívocos que houver identificado, quando é isso mesmo que espera dele, em relação aos próprios equívocos e defeitos. A autêntica lealdade é recíproca. (…) Lealdade pede lealdade.

(…) A bajulação, o aulicismo(*), o carreirismo oportunista, os coros de dizer amém, sempre em si mesmos repelentes, são outra coisa muito diversa de lealdade; são incompatíveis com ela. Como, no outro lado, são com ela igualmente incompatíveis a prepotência, o abuso de poder, o desrespeito ao subalterno, a arrogância. (…).

[A lealdade] porque é uma virtude e, como tal, só se encontra à vontade dentro de uma constelação de virtudes. (…) Entre ladrões, entre facínoras, não há propriamente lealdade; haverá cumplicidade, interesses, parceria, coautoria, negociatas, todas uma trama de mútuas dependências e escusos comprometimentos. (…).

Qualquer autoridade que aspire aquela grandeza que leva a inscrever o nome na História, tem de saber cercar-se de auxiliares dotados dessa penosa lealdade e ouvi-los, e prestigiá-los. No mesmo sentido prestigiará a Oposição e a Imprensa e as quererá independente e críticas. 

(…). Os governantes (…) precisam de auxiliares altivos e não amedrontados, dispostos a dizer lealmente o que pensam, a alertar para as consequências que enxergam, a instruir, enfim, mais completamente a autoridade, para que esta não tome decisões sem conhecer os lados todos do problema e sem bem pesar todas as suas implicações. “

General Paulo Chagas

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