Covid-19 pode provocar um novo genocídio na Amazônia, alertam representantes indígenas

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O anúncio do primeiro caso de coronavírus em uma reserva indígena do Brasil chamou a atenção para a situação dos povos autóctones, que correm um risco ainda maior com a pandemia. Essas populações, especialmente as que se isolaram voluntariamente, são historicamente muito mais vulneráveis a doenças vindas do exterior porque não são imunizadas contra muitas patologias.

A Coordenação de Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coica), que reúne representantes dos autóctones de nove países da América do Sul, vem alertando para a necessidade de que os Estados reforcem a proteção de povos vulneráveis. A confirmação na quarta-feira (1°) de que uma indígena da etnia kokama havia sido diagnosticada com o novo coronavírus no estado do Amazonas confirmou o que muitos temiam: a pandemia de Covid-19 já chegou nas tribos da Amazônia e do Chaco, na Argentina.

Segundo a Coica, é indispensável que “os governos da região, que controlam as Forças Armadas e ministérios da Saúde, não permitam que pessoas não indígenas entrem nos territórios onde os povos indígenas estão em isolamento voluntário, porque são os mais vulneráveis”, disse Gregorio Mirabal, coordenador-geral da organização, à RFI.

Para ele, “o Estado precisa implementar uma política para não permitir a entrada nas comunidades onde há acesso por via terrestre ou fluvial, além de impedir o turismo e organizações religiosas que desejam agir nas comunidades”, insiste Mirabal, lembrando que raramente há infraestrutura de atendimento médico próximo dessas comunidades.

O coordenador da Coica lembra que a ameaça representada pela Covid-19 ressalta um problema mais amplo, ligado às deficiências das políticas dos Estados, que permitem a exploração sem controle das terras indígenas em países como Brasil, Colômbia ou Equador. Sem esquecer o proselitismo religioso, o tráfico de drogas e a perseguição de líderes sociais, que tornam qualquer trabalho de prevenção mais difícil.

“Não se trata apenas de um problema de saúde. É um problema de desmatamento e invasão de terras. Se não agirmos em conjunto com o governo e as organizações indígenas, pode haver um novo genocídio na Amazônia“, denunciou Mirabal.

Embora a Covid-19 seja uma doença recentemente conhecida, para os povos indígenas da bacia amazônica, a ameaça revive o medo de patologias vindas de fora, como as que dizimaram seus ancestrais. Segundo o historiador americano Henry Dobyns, as doenças importadas pelos europeus na América (tifo, varíola, sarampo, peste, etc.) mataram 95% da população do hemisfério durante os primeiros 130 anos da colonização.

com rfi
Com informações de Alejo Schapire e Raphael Morán

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